Por: Thaís Carvalho.
Na tarde desta quarta-feira (13),
às 14h, aconteceu no Museu da Imagem e do Som, na Praça XV, a gravação
do projeto “Depoimentos Para a Posteridade”. O MIS
elaborou este projeto com o intuito de preservar a memória de vários setores da cultura
brasileira, tais como música, literatura, cinema e artes plásticas. A homenageada
deste mês de fevereiro foi a talentosa cantora e compositora Ângela Ro Ro.
Na mesa de debates com a cantora estavam presentes a compositora, escritora e
produtora Ana Terra, a jornalista Lúcia Leme, o músico Ricardo Mac Cord, o
jornalista e pesquisador Rodrigo Faour e a diretora, atriz, produtora e cantora
Sandra Pêra.
Angela Maria Diniz Gonçalves, a Angela Ro Ro, carioca e dona
de uma voz rouca inconfundível, relatou os grande momentos de sua carreira e da sua vida pessoal,
como sua infância, o romance com Berenice, sua homossexualidade, composição das
canções inspiradas nas suas experiências de vida...
Ro Ro, que estudou em colégios de freiras durante boa parte da vida, aos oito anos de
idade começou estudar para a preparação de noviça - pois queria
ser freira -, mas já estava ligada ao campo da música. Aos seis anos de
idade ela compôs sua primeira canção tocando arcordeon, em casa, e sua mãe viveu intensamente a música e a dança, em sua
infância.
Conhecida pelo seu apelido, sua voz rouca e
seu dente quebrado, Ângela Ro
Ro disse que na infância era uma menina “nerd” e que o apelido veio de uma
de suas travessuras:
“Eu não brincava muito com as
outras crianças, mas um dia eu fui à rua quando os meninos estavam brincando de estátua, e um deles me
empurrou. Para não
chorar, eu saí, mas, como já
possuía uma voz grossa, meu choro fazia um som de “ro-ro” e hoje sou Ângela Ro Ro”.
O depoimento da cantora foi
recheado de todas as histórias de sucesso e suas influências na música. Nomes como
Frank Sinatra e Caetano Veloso – com quem já gravou canções – fazem parte dessa lista.
Suas músicas foras inspiradas em
sua vida pessoal, e um exemplo relatado por ela foi a Mares da Espanha:
“Eu fui atrás da minha namorada [na época, Berenice] e um ‘bicha’ disse que ela estava em um motel conhecido como Espanha”.
A música relata a traição e as dificuldades de
relacionamento do casal.
“Você navegando os mares da Espanha
Tecendo prá outra, seu corpo com manha
Você navegando o vazio da Espanha
E eu no Leblon”
Um dos auges de sua carreira
foi no período de
moradia em Londres, onde acabou trabalhando com Caetano Veloso, Gal Costa e outros ícones
da música brasileira. No Brasil a cantora se tornou uma grande amiga do
cineasta baiano Glauber Rocha, que lhe mostrou o mundo do cinema e dos
musicais.
Os escândalos que cercaram a cantora foram pontos curiosos durante o debate. Ela, que possui uma história
manchada por conta da bebedeira, esclareceu que nunca negou que o álcool era
seu problema. Também
falou dos escândalos após o acidente no carro de Sérgio
Bandeira e o não apoio da gravadora durante o processo. Lembrou dos
problemas sociais e lutas pelos seus ideais durante o período pós-ditadura e a revelação da sua homossexualidade.
“Eu nunca apanhei em casa, mas apanhei
muito na rua por ser quem eu era”, relatou a cantora sobre opressão e o
preconceito da época.
Ângela falou também sobre os escândalos envolvendo milicianos antigos e atuais, e mostrou
seu posicionamento com um ato: “Marielle presente”.
A cantora encerrou o depoimento
falando sobre a trajetória dos seus discos, parcerias e músicas censuradas, por
abordar assuntos
como drogas e sexo, que na época eram tabus na cultura.
Os Depoimentos Para a Posteridade
ficam sobre domínio do Museu da Imagem e do Som e após 48 horas da gravação são disponibilizados no acervo do
museu. Para assistir é preciso agendar visita no SITE.