No dicionário a palavra culpa é definida por falta,
delito, crime, dano, mal ou desastre causado a outra pessoa. Ou seja, quando
nos consideramos responsáveis por algo condenável moralmente. Contudo, o
sentimento de culpa pode também estar associado com um autojulgamento negativo
que nos leva a acreditar que não conseguimos viver de acordo com o que a
sociedade, os amigos ou a família esperam de nós. Quando entendemos que não agimos
de acordo com valores ou princípios que consideramos admiráveis, essa sensação
de que cometemos uma infração insiste em nos acompanhar. E essa ruminação
mental, esse ciclo de pensamentos repetitivos pode se estender indefinidamente.
Existe uma figura mitológica que ilustra metaforicamente
essa punição que nunca finda: Sísifo foi penalizado com a tarefa de rolar uma
enorme pedra todo dia morro acima e, quando por exaustão ou fadiga a pedra
rolasse morro abaixo, seu exercício no dia subsequente seria rolá-la novamente
morro acima, eternamente. Condenado a um esforço enorme e inútil, dia após dia
e para todo o sempre. Em paralelo, talvez esta história nos ajude a pensar no
papel que a culpa pode ocupar em nossa existência. Quando perdemos a capacidade
de nos perdoar, podemos estar lançando sobre nós o maior dos castigos.
A culpa, assim, assume sempre um peso enorme. Joga sobre
nós um sentimento de onipotência, como se houvesse a possibilidade de acertar
em todas as situações o tempo todo. O remorso que sentimos diante daquilo que
fizemos e julgamos como absurdo pode até diminuir diante do perdão de quem se
viu prejudicado, mas desaparece apenas se essa absolvição vier de nós. Esta
sensação de mal-estar permanente não se dissipará caso não mudemos algo em nós.
E isto se relaciona principalmente com nossa forma de enxergar o ocorrido.
Ao ficar aprisionado aos acontecimentos passados que nos
geraram vergonha nos comprometemos inconscientemente com o sofrimento. Esta
negatividade afeta nossos pensamentos, condutas e emoções nos lançando em uma
roda viva que consome muito de nossa energia psíquica. E inclusive, por vezes,
quando não aceitamos nossos próprios erros, aumentamos a chance de repeti-los.
Entramos em um padrão de comportamento prejudicial que compromete seriamente
nossa saúde mental. Mas diante de nossas falhas, de que outro modo poderíamos
nos posicionar?
Primeiro, é imprescindível que nos apropriemos da
compreensão sobre nossa liberdade diante da vida e o quanto isto impacta na
responsabilidade - não na culpa - sobre nossas ações e relações. Além disto, se
faz imperativo entender que somos pessoas e, portanto, passíveis de disparates
pela nossa própria condição. Não aceitar isto seria retirar de nós nossa
própria humanidade. E por fim, é fundamental a percepção de que precisamos lidar
com nossos desacertos como parte de nosso processo de evolução. Perceber nossos
deslizes pode nos impulsionar na direção de corrigi-los. E esta é uma
oportunidade de ouro!